sexta-feira, 4 de março de 2011

Despedida

Ela decidiu ir até lá, estacionou o carro na praça central e pegou um táxi. Depois de um tempo pediu que o motorista parasse um pouco antes do combinado, seguindo a pé na rua mais deserta.
Foi preciso muita coragem pra estar ali novamente, naquela casa de portões tão largos e ostensivos.
Após dois minutos ele aparece no jardim, parecia sentir a presença dela.
-Posso entrar?- Ela indagou.
-Posso deixar... Você me ajuda a apanhar os jambos?
Aquilo era uma tentativa de esconder a angústia que habitava por volta das quatro da tarde.
Então ela responde:
- Acredito que seja apanhando jambos o melhor modo de te dizer o que me trouxe aqui.
-Ah, então dessa vez tem um motivo?
-Tem, acredito ser o último e único motivo que me traria aqui.
-Então não deveria ter vindo. Eu prefiro quando você não está aqui. Você não deveria estar em lugar nenhum.
Ela não esperava escutar estes desejos antes de começar a falar. Mas prosseguiu fingindo ser irrelevante aquele balbucio.
-Bom, mas eu estou, e em vários lugares, inclusive aqui, onde você também está.
-Dá pra falar logo de uma vez o que quer? Porque se veio falar de coisas que me façam perceber a merda que eu sou, pode se calar e ir embora. Você já me convenceu...
-Não. Vou me casar sábado e queria que você soubesse.
Aquilo parecia ser irrelevante diante da procura de um lugar pra sentar naquele jardim imenso. Mas ele voltou o olhar pra ela e os seus olhos pareciam gritar de dor.
-Por que veio me dizer? Achou mesmo que iria me importar com a sua vida? Faça o que quiser dela. De tudo, talvez eu vá lembrar que você existe quando encontrar uma reportagem policial em algum jornal de quinta.
-Vim te falar porque lhe respeito e acredito que agora esse suplício tenha um fim de verdade, com apenas um ponto final; Um fim contundente para nós dois.
-Você é louca. Acredita mesmo que é um ser superior a tudo... Eu não sinto nada por você, e a maior das suas loucuras é achar que existe algo ente a gente. Não há nada, é tudo fruto da sua imaginação tão fértil.
-Para! Eu não quero saber como você considera o que aconteceu entre a gente. Mas você é importante pra mim e é apenas por isso que estou aqui. – Não é fácil dar um rumo a sua vida e a outras vidas...
- Moça, eu espero muito que você não venha me trazer fotos dos seus filhos na parede da felicidade da casa que planejávamos ter...
-Não, não vou.
Dos olhos dele caiam lágrimas grossas e velozes e ele não fazia questão de escondê-las. Ela apertava os dedos olhando para o chão como se assistisse à dor que habitava no seu peito.
-Essa vida é uma merda! - Disse ele.
-Não, não é! A gente esqueceu-se de se amar.
O rapaz ergue a cabeça como se estivesse encontrado uma força súbita e fala quase sem conseguir, como se as palavras pesassem toneladas.
-Eu te amei muito, nunca te falei, mas acho que esse é o tempo que me resta pra dizer isso. Tenho inveja desse cara que vai cuidar de você, que os seus filhos vão chamar de pai...
-Só vim até aqui porque você ainda é a coisa mais importante da minha vida. Eu te amo e isso não cabe em mim, não caberia em você também, por isso acredito que será mais fácil a gente não ser nada, só existirmos separadamente.
Ele empurrava os pés na grama como se isso afastasse ou aliviasse alguma coisa.
-Vá embora e esqueça o meu nome, minhas músicas, as neuroses, esqueça que alguém riscou os seus livros, as suas pernas, e os seus seios com frases de amor. Esqueça tudo e não guarde nada.
- Vou tentar.
Ele levou as mãos até os cabelos e sussurrou ares de dores mortais, depois gritou:
-Vá embora, por favor.
O céu estava quase escuro, mas ainda foi possível gravar a imagem daquele fim de tarde cinza, deu pra fixar na memória aqueles olhos tristes que se afogavam nas águas dramáticas dos relacionamentos carnais.
Então, antes de sair na companhia de uma bolsa gigante ela ajoelhou-se e o beijou na testa, jurando amá-lo pra sempre.
Aquela tarde eternizou-se implantando a utopia de felicidade na vida daqueles dois seres demasiadamente humanos.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Naquele dia e hoje.

Chega o momento em que é necessário perceber que não dá mais. Chega a hora de parar. E algum dia essa hora chega mesmo!
Pode ser que o instante exato de amadurecer seja oriundo do mais devastador avalanche de todos os invernos, e não há muito o que se fazer a não ser aceitar.
As palavras ajudam a aliviar o nó imaginário do nosso estômago.
É tão ruim. Chorar não resolve nada além de consolar a parte física que dói.
Diante dessa situação de perda, ou de admissão de perdas pretéritas, o novo é esperançoso mas dá sempre aquele medo pelo fato de ser desconhecido.
A gente cai, rala um joelho, depois cai, rala o outro...depois passa a ferir outras coisas, até a fratura exposta. De tal modo acontece com a alma.
Eu não quero me atrelar as coisas que deixaram de existir, elas saíram do plano real, nem aos medos, nem a nada. Também não é um dos meus desejos sair por ai ferindo as pessoas em decorrência da minha fraqueza humana, a final, isso não está restrito a minha pessoa, tal coisa é natural.
Os problemas ganham dimensões diante das situações. Mas perder é sempre um dano, pode até não causar responsabilidade civil e ser dentro de um plano lógico, irreparável.
Esse texto é louco. Não se sabe ao certo o que quero dizer, não diferindo muito dos outros, mas é isso. As palavras ecoam diante da tristeza dos fatos, o que é comum, mas não ter o que amamos é a pior das frustrações, e é preciso buscar evoluir o espírito para suportar as diversas mazelas humanas que nos cabe.
É isso, temos que nos preparar todos os dias para quebrar e viver sem tudo aquilo que consideramos essencial.
Tudo passa e nada vale nada.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Fazer o quê?

Não dá pra saber, "nunca se sabe".
“Fiquei feliz em poder sentir tua falta, - a falta mostra o quão necessitamos de algo/alguém. É assim o nosso ciclo. Eu te preciso. Perto, longe, tanto faz. Preciso saber que tu está bem, se respira, se comeu ou tomou banho - com o calor que está fazendo neste verão, tome pelo menos uns três ao dia, e pense em mim, estou com calor também. Me faz bem pensar nessas atividades corriqueiras, que supostamente você está fazendo. Ah, e eu estou te esperando, com meu vestido curto, óculos escuros grandes e meu coração pulsando forte, e te abraçar até sentir o mundo girar apenas para nós. É, eu gosto muito de ti.”

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Olhe-o

Ele é de um jeito que ainda não sei, porque nem vi. Vai olhar direto para mim. Ele vai sentar na minha mesa, me olhar no olho, pegar na minha mão, encostar seu joelho quente na minha coxa fria e dizer: vem comigo. É por ele que eu venho aqui, boy, quase toda noite. Não por você, por outros como você. Pra ele, me guardo. Ria de mim, mas estou aqui parada, bêbada, pateta e ridícula, só porque no meio desse lixo todo procuro o verdadeiro amor. Cuidado, comigo: um dia encontro.

(Caio Fernando Abreu)

Humano, demasiado Humano

A esperança
- Pandora trouxe o vaso que continha os males e o abriu. Era o presente dos deuses aos homens, exteriormente um presente belo e sedutor, denominado de "vaso da felicidade". E todos os males, seres vivos alados, escaparam voando: desde então vagueiam e prejudicam os homens dia e noite. Um único mal ainda não saíra do recipiente; então, seguindo a vontade de Zeus, Pandora repôs a tampa, e ele permaneceu dentro.
O homem tem agora para sempre o vaso da felicidade, e pensa maravilhas do tesouro que nele pessui; este se acha à sua disposição: ele o abre quando quer; pois não sabe que Pandora lhe trouxe o recipiente dos males, e para ele o mal que restou é o maior dos bens - é a esperança. - Zeus quis que os homens, por mais torturados fossem pelos outros males, não rejeitassem a vida, mas continuassem a se deixar torturar. Para isso lhes deu a esperança: ela é na verdade o pior dos males, pois prolonga o suplício dos homens.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Hoje

Ela o amava. Ele a amava também. E ainda, que essa coisa, o amor, fosse complicada demais para compreender e detalhar nas maneiras tortuosas como acontece, naquele momento em que acontecia dentro do sonho, era simples. Boa, fácil, assim era. Ela gostava de estar com ele, ele gostava de estar com ela. Isso era tudo.


Caio Fernando Abreu